Riberrô? Vierrá?

Outro dia ouvi num intervalo comercial de uma TV pública que uma certa cantora lírica francesa, cujo nome me parece que era Catherine Ribeiro (ou Marguerite, ou Jacqueline…), viria se apresentar no Brasil. O curioso – e, para mim, principalmente irritante – é que o locutor pronunciava o seu sobrenome como “riberrô”. Tudo bem que os franceses pronunciem nomes estrangeiros à moda deles, afinal nós também fazemos isso. Aliás, todos os povos fazem isso. É por essa razão que eles pronunciam os sobrenomes do falecido antropólogo Lévi-Strauss (de origem alemã) e do eterno craque do futebol Platini (do italiano) como “levistrrôss” e “platiní”, respectivamente. Como esses sobrenomes são estrangeiros também para nós, tanto faz dizê-los à maneira dos franceses, dos alemães ou dos italianos. Optamos então por pronunciá-los como os próprios donos dos sobrenomes os pronunciam. Pela mesma razão, o linguista Noam Chomsky é conhecido como “tchómski” tanto aqui quanto nos EUA, sua terra natal, embora a pronúncia original do sobrenome, de origem judeu-russa, seja “khómski”.

Agora, pronunciar à moda estrangeira nomes que são legitimamente portugueses já é demais! Lembro que nas Copas do Mundo de futebol de 1998 e 2002 tivemos que aguentar os narradores esportivos brasileiros chamando os jogadores franceses Vieira, Pires e Fernandez de “vierrá”, “pirrés” e “fernandês”. (Na contramão dessa tendência, esses mesmos narradores chamam o futebolista colombiano James Rodríguez de “rames”, à moda espanhola, quando os próprios colombianos – e o próprio detentor do nome – o chamam de “djeims”, tal como o fazem os ingleses, criadores do nome.)

Mas será que os franceses são tão zelosos assim com nossa pronúncia quando se referem a brasileiros com nomes de origem francesa, como o infeliz eletricista-confundido-com-terrorista Jean Charles de Menezes, morto pela polícia londrina em 2005? Há no Brasil uns poucos sobrenomes franceses, como Bittencourt e Fleury, que pronunciamos erradamente como “bitencur” e “fleurí” quando o certo seria “bitãcur” e “flörrí”. E também pronunciamos Jean como “jiã” e não “jã”, e Charles como “xarles” e não “xarl”. Também temos inúmeros brasileirinhos chamados Rian (ou Ryan), nome inglês que virou moda nas classes mais baixas, onde são chamados de “riã” e não de “ráian”. E “riã” (isto é, rien) quer dizer “nada” em francês. Se for mesmo verdade que um nome pode determinar o futuro de uma pessoa…

Mas voltando ao ponto: será que franceses e ingleses pronunciam Jean, Charles, Rian, Bittencourt e Fleury à moda brasileira quando os donos de tais nomes são nossos patrícios? Certa vez ouvi numa emissora de rádio em Buenos Aires o locutor mencionar um filósofo suíço de nome Rota Punto Rota Punto Ru-ce-au e só após alguns segundos de perplexidade compreendi tratar-se de J. J. Rousseau (ou melhor, Jean-Jacques Rousseau), que muitos no Brasil, inclusive na universidade, tratam na intimidade por “jiã-jaques”.

15 comentários sobre “Riberrô? Vierrá?

  1. O escritor, filósofo e músico Jota punto Jota punto Ru-ce-au (também conhecido como Jean-Jacques Rousseau) nasceu em 1712 na República de Genebra, é verdade. Era cidadão genebrino pela lei do sangue – ao nascimento, teve direito automático à cidadania herdada do pai. Era genebrino, sim, mas não suíço.

    Estranho? A explicação é simples. A cidade de Genebra era então uma república independente. Só viria a integrar a Confederação Helvética um século mais tarde, como subproduto da reviravolta provocada pelas Guerras Napoleônicas. Foi só a partir de 1815 que os cidadãos genebrinos se tornaram suíços de pleno direito.

    Então, como é que fica? Qual era a nacionalidade de J.-J. Rousseau? O jeito é repetir o que costumamos fazer ao falar de cidadãos de países que deixaram de existir: menciona-se o nome do país defunto.

    Houve cidadãos do Reino da Prússia, do Império Austro-Húngaro, da República de Veneza, do Reino de Aragão.

    Rousseau, por seu lado, era cidadão da República de Genebra.

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  2. Obrigado pela informação, Manzano. Na verdade, o equívoco não é só meu, mas das enciclopédias que trazem a biografia do filósofo genebrino e que lhe atribuem a nacionalidade suíça. De todo modo, costumo dar mais valor à nação do que ao Estado. Para mim, o explorador veneziano Marco Polo era simplesmente italiano. Da mesma forma, o compositor soviético Katchaturian era armênio, o violonista espanhol Pablo (na verdade, Pau) Casals era catalão, e os chamados “turcos” que imigraram para o Brasil vindos do Império Otomano eram na verdade sírios e libaneses ou, melhor ainda, árabes. Para mim, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental nunca deixaram de ser apenas a boa e velha Alemanha. O mesmo vale para as Coreias do Sul e do Norte. Ah, uma última observação: o locutor argentino também chamou Rousseau – ou Ru-ce-au – de suíço.

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    1. Qual o critério para considerar catalão ao espanhol Pablo Picasso, mas italiano ao veneziano Marco Polo? Com todo o separatismo latente na Espanha, o estado espanhol unificado é muito mais antigo que o italiano. Na Itália, ao menos até há pouco tempo, alguém se dizia primeiro veneziano, ou milanês ou romano e só depois italiano. E a Suíça até hoje é uma confederação, cujos cantões são independentes e soberanos inclusive, de modo que até hoje faria sentido dizer-se genebrino.

      Eu confesso que não entendi o seu critério nesta.

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      1. Não sei se o meu comentário soou desrespeitoso, mas, se soou, foi a despeito da minha real intenção, que era a de realmente compreender o seu critério, porque, para mim, ou bem se atribui ao nascido em determinado Estado-nação a nacionalidade que corresponde aos cidadãos de dito Estado (pelo que Pablo Picasso seria espanhol, e Marco Polo, italiano), ou se adota a perspectiva étnico-cultural dissociada do Estado para se considerar catalão a Pablo Picasso e veneziano a Marco Polo.

        A propósito, considerar italiano a Marco Polo pode ser interpretado, e com boas e sólidas razões, um anacronismo; já não seria anacronismo considerar espanhol a Pablo Picasso, por exemplo, porque há muito que a Catalunha integra o Estado espanhol, a despeito de todas as contestações, antigas e recentes.

        Assim é que fiquei mesmo confuso, pelo que lhe agradeceria se me pudesse esclarecer o critério que aplicou na resposta ao Manzano.

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      2. Desculpe pela demora em responder. Ontem foi meu aniversário, e estou há dois dias tentando responder a todas as mensagens com votos de felicidades que recebi e ainda estou recebendo. Meu critério de definição de nacionalidade é absolutamente pessoal e idiossincrático, não tente compreendê-lo.

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      3. A Itālia continua sendo uma península cujo nome já fora reconhecido pelos romanos antes mesmo de ter virado um estado nacional unificado. Então italiano pode ser usado em extensão a todos, inclusive etruscos.

        Já Picasso nasceu numa espanha unificada desde 1469. Isso eu nem entro no conceito de hispânico, pois ao pé da letra até os lusos são hispânicos, por mais que alguns portugueses bairristas e com pouco estudo discordem. A terra do Ebro, Ibēria e dos coelhos, Hispānia, são sinônimos, um de origem grega, outro latino.

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    2. Em latim, Italus, Italicus e Italianus são sinônimos.

      Nasceu na Itália terra dos vitelos, é italiano.

      Do Osco viteliú ‘terra do vitulus/vitela’ > Ιταλία ‘gr’ > Itālia ‘la’> Itália ‘pt’.

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    3. Caro AmazonDruid:

      Por esse critério, os etruscos eram italianos assim como eram brasileiros os tupis e os tapuias. Para evitar anacronismos, no entanto, estes são ditos povos pré-cabralinos, e aqueles, povos itálicos.

      Mas não é, como terá ficado claro, em referência ao lugar em que se desenvolveram as muitas e sucessivas sociedades (em sentido amplíssimo, que abarca cidades-Estado, reinos e impérios antigos, reinos medievais e modernos e repúblicas medievais e modernas) da península itálica que o Aldo considera italianas às nações (e são muitas, como são!) que habitaram a Itália nos últimos não sei quantos séculos.

      O critério do Aldo é, como ele mesmo disse, pessoal e idiossincrático, pelo que nem sequer vou tentar supor qual seja, mas veja que é bem complicado considerar os povos itálicos, em qualquer época da história da península, como nação italiana: se se entender como italianos todos os que, desde a consolidação do domínio de Roma até os dias atuais, habitaram a península, isto considera como constituintes de uma mesma nação desde os romanos dos primórdios, que pouco ou nenhum aporte genético tinham ainda recebido dos povos germânicos, até os italianos atuais, que são provavelmente quase tão germânicos quanto são romanos. E eu nem falei de dialetos, costumes, leis, organização política etc.

      Veja o exemplo de Marco Polo: nasceu em 1254, cerca de 550 anos depois da fundação e cerca de 540 anos antes da extinção da Sereníssima República de Veneza, que, assim, tinha, ao ano do nascimento do seu filho ilustre, quase o mesmo tempo de história que ainda teria pela frente. E foi uma história de quase 1.100 anos!

      Em que sentido não era Marco Polo, propriamente, veneziano? E em que sentido se poderia chamar italiano ao natural da S. R. V. e também àquele que nasceu, viveu e morreu no Reino Lombardo, de muito mais curta duração, que foi contemporâneo da S. R. V. no alvorecer desta? Só se for no mesmo sentido em que você chamou italianos aos etruscos.

      É por isso que, se for para considerar italiano a Marco Polo, pelo mesmo critério, deve-se considerar espanhol a Pablo Picasso (e com muito mais razão, porque, no segundo caso, não há nem sequer o anacronismo que haveria no primeiro); se for para considerar catalão a Pablo Picasso, então, deve-se considerar veneziano a Marco Polo. O que não me parece fazer sentido, a não ser segundo um critério pessoal e idiossincrático, é considerar italiano a Marco Polo e catalão a Pablo Picasso.

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      1. Caro AmazonDruid,

        Você se importaria de me dizer onde está a confusão? Não é retórica a pergunta, eu admito de pronto que tenha feito confusão, mas não sei dizer em que ponto.

        Um abraço,
        Rodrigo.

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      2. Só para deixar mais claro a que me venho referindo, embora eu ache que já tenha sido claro. Tome esta pergunta feita no Quora e leia, em seguida, uma das respostas:

        “I Sardi sono italiani veri e propri o sono una minoranza etnica tipo gli altoatesini di lingua tedesca?”

        “Per rispondere a questa domanda, dovrei capire cosa vuole dire ‘italiano vero e proprio’. Lasciamo da parte per un momento i sardi e gli altoatesini: un friulano è un ‘italiano vero e proprio’? E un calabrese? Se li metti uno accanto all’altro potrebbero apparirti geneticamente più distanti di un portoghese da un ungherese (e probabilmente lo saranno davvero) e se li lasci parlare nelle loro lingue locali non si capiranno a vicenda.

        Perché l’Italia è un tale minestrone di etnie e di culture che è veramente difficile stabilire chi sia un ‘italiano vero e proprio’, sempre che questa definizione abbia un senso.

        Quindi direi che la risposta è: tutte e due le cose. I sardi sono una minoranza etnica, in quanto sono rimasti isolati dalla società e dalla cultura italiana fino al 1720. Ma sono anche ‘italiani veri e propri’ almeno tanto quanto lo sono i pugliesi o i valdostani.

        Poi ci sono quelli come me che non appartengono a nessun posto: italiani e basta.”

        Se o Aldo ou você se referem a italianos no sentido muito alargado de que todos os muitos povos autóctones, invasores, descendentes dos autóctones com os invasores, descendentes dos descendentes dos autóctones com os invasores e de novos invasores, nas muitas combinações diferentes, em diferentes proporções, em cada rincão da península são, ainda assim, em seu conjunto, discerníveis globalmente dos eslavos, eles mesmos divisíveis em muitíssimas etnias que se têm matado ao longo dos últimos muitos séculos (e até hoje…), então, posso dizer que os entendo, embora me pareça que a definição é ampla demais para ser minimamente útil.

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  3. Há muito tempo sigo o seguinte procedimento: se não sei pronunciar o nome estrangeiro, eu o pronuncio à maneira portuguesa. Creio que, se todos agissem assim, evitaríamos o constrangimento de ver (e ouvir) gente a pronunciar nomes de origem espanhola ou francesa, por exemplo, como se ingleses fossem.
    Há alguns dias, falando sobre as eleições francesas, uma jornalista da Globo News pronunciou o H inicial do sobrenome de François Hollande como [h] (ou [x]); o U do sobrenome do político polonês Donald Tusk é frequentemente pronunciado na imprensa brasileira como o U de ‘bus” ou “put” etc.
    O problema é mais complicado do que parece. A situação é tão vexatória, que num documentário sobre história o locutor (um profissional de dublagem, portanto), ao dizer que “Constantinopla estava cercada pelas hostes turcas”, pronunciou o H de “hostes” como [h]. Deve ter pensado que se tratava de palavra estrangeira.
    Noutro programa histórico, este sobre sobre as Guerras Médicas, ao se contar a história do soldado que correu 42 quilômetros para anunciar a vitória dos gregos sobre os persas, foi dito que, ao chegar, ele gritou NÁIKE! (“vitória!”) e caiu morto. O locutor, com certeza, viu a transliteração do termo grego e achou que se pronunciava como o daquela marca de material esportivo Nike…

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    1. Pois é, meu amigo, me deparo com essa situação o tempo todo, principalmente na imprensa. Antigamente, os jornalistas tinham uma certa cultura geral e, mesmo sem saber falar outras línguas, eram capazes de distinguir quando um nome era alemão, italiano, japonês… Hoje em dia, pronunciam tudo à moda inglesa.

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