Por que pomos os pingos nos is?

Um(a) leitor(a) que não se identifica me pergunta de onde veio a expressão “pôr os pingos nos is”. Aqui vai minha resposta.

A expressão “pôr os pingos nos is” significa organizar o que está confuso, discernir entre uma coisa e outra, definir o lugar de cada coisa, etc. Mas por que, quando queremos pôr ordem no caos, dizemos que vamos colocar os pingos nos is?

Originalmente o “i” não tinha pingo. Na época romana, só havia as letras maiúsculas. E, como se sabe, o “I” maiúsculo não tem pingo (aliás, parece que muita gente não sabe disso). Quando, séculos depois, inventaram as minúsculas para facilitar a tarefa dos copistas de reproduzir centenas de páginas manuscritas, surgiu um problema: como as letras cursivas, típicas da escrita manual, são todas ligadas entre si (e é exatamente por isso que esse sistema de escrita facilitava a vida dos copistas, já que eles não precisavam levantar a pena do papel para passar de uma letra a outra), dois “ii” se assemelhavam a um “u”, o que gerava ambiguidade, pois o latim tem muitas palavras com dois “ii”.

A solução foi criar um sinal distintivo, no caso, o pingo do “i”. É bem verdade que, posteriormente, com a invenção do trema, os dois “ii” passaram a se confundir com “ü”, mas agora o risco era menor: as línguas que tinham “ii” não tinham “ü” e vice-versa.

Conclusão: colocar um pingo no “i” foi a maneira encontrada pelos monges medievais que passavam a vida copiando livros para distinguir letras diferentes. Desde então, pôr os pingos nos is é sinônimo de distinguir, definir, determinar, e por extensão organizar, enquadrar, esclarecer…

Uma curiosidade: o alfabeto turco tem um “i” com pingo (i, İ) e outro sem pingo (ı, I), tanto na forma minúscula quanto na maiúscula. E as duas letras têm sons diferentes, ou seja, representam fonemas distintos. De quebra, o turco também tem “u” com trema (ü).

5 comentários sobre “Por que pomos os pingos nos is?

  1. Caro Aldo,

    Não encontrei o campo apropriado para enviar perguntas, na seção “Pergunte ao linguista”; por isso, a pergunta vai por aqui mesmo: inovamos nós quando separamos por que, ou inovaram os portugueses quando o juntaram?

    E vai de contrabando outra pergunta que nada tem que ver com esta: quando deixamos de pospor o sujeito ao verbo nas interrogativas, como ainda (alegam) fazer os portugueses (não o fazem: quase sempre usam a estrutura “o que é que” seguida de sujeito anteposto ao verbo).

    Um abraço,
    Rodrigo.

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    1. Olá, Rodrigo. Primeiramente, o link para me enviar perguntas é esse mesmo; ele vale para todas as seções do blog. Respondendo agora às suas perguntas, os quatro tipos de “por que” que temos no Brasil (por que, porque, por quê, porquê) dão nó na cabeça de muita gente. Talvez por isso, os portugueses resolveram abolir as formas separadas e ficar só com as juntas (e isso é uma inovação recente dos nossos irmãos lusos). O italiano fez o mesmo há séculos. Só que há casos em que, a meu juízo, o “por que” tem de ser separado. Por exemplo, quando significa “pelo/a/os/as qual/ais”, como em “as agruras por que passamos”.
      Sobre a posposição do sujeito ao verbo nas interrogações, a fala popular rejeita esse uso no Brasil desde o século XIX. Em Portugal, o hábito é um pouco mais recente, mas também já está completamente arraigado. Ou seja, a chamada interrogação clivada (com a partícula “é que”) já é a forma padrão em português – como também em francês (Est-ce que vous parlez français? e Vous parlez français? são muito mais frequentes que o formal Parlez-vous français?).

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  2. Obrigado, Aldo.

    Esqueci-me do francês, em que esse traço é mesmo conspícuo. Já, no espanhol, a posposição na interrogativa segue bem viva, não? Ao menos na escrita, parece-me que sim. Quase nunca ouço espanhol falado, e a hispanofonia é um mundo (e, ainda assim, as variedades de espanhol não se afastaram tanto quanto PB e PE).

    Um abraço,
    Rodrigo.

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    1. De fato, a posposição do sujeito em espanhol ainda segue viva, embora haja muitas variedades de espanhol na América. A que mais se afasta do modelo ibérico é o platino (Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile), que tem o peculiar pronome pessoal “vos”. No entanto, a língua de Cervantes tem a Real Academia Española a unificar a gramática em todos os países hispanofalantes, o que falta ao português. Tivéssemos nós também uma academia centralizadora, e a distância entre a língua culta do Brasil e a de Portugal seria bem menor (talvez a da língua falada também).

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