Ah, que saudade do “a”!

Já faz um bom tempo que o português brasileiro aposentou a preposição a. Atualmente, a maioria dos verbos que antes regiam essa graciosa preposição preferem a companhia do para. Hoje em dia, não se dá nada a alguém, mas para alguém; não se diz algo a uma pessoa, mas se fala alguma coisa para ela. Verbos de transmissão (em latim, verba dativa), aqueles em que há implícita a ideia de fazer alguém ter algo que não tem, como dar, entregar, contribuir, enviar, e verbos de comunicação (lat. verba dicendi), como dizer, contar, explicar, informar, etc., que sempre pediram como complemento a preposição a – e que ainda o fazem em outros idiomas, como o espanhol, o francês e o italiano – resolveram trair essa companheira de tantos séculos na adúltera relação com para ou, pior, com sua irmã plebeia pra (mais raramente, com em e com, como no caso de chegar em, contribuir com, e por aí vai).

A razão desse adultério deve ser a possível confusão entre a preposição a e o artigo feminino a. Aliás, esses dois homônimos são a causa maior da dificuldade que nove entre dez falantes – ou melhor, escreventes – do português têm de usar a crase. A esse imbróglio se une o pronome pessoal oblíquo a. Assim, uma frase como “Aconselhei-a a ir de carro à padaria” vira algo como “Aconselhei ela pra ir de carro na padaria”. Dada a ambiguidade dos três a’s, a preposição virou pra ou em, o pronome oblíquo virou ela, e só o artigo ainda não foi substituído.

A preposição a atualmente resiste apenas em locuções petrificadas como a respeito de, a propósito, com vistas a, a meu ver, a qualquer preço, a todo custo… Nos demais casos, a teve de ceder o lugar que antes era exclusivamente seu: hoje se vai pra escola ou na escola, jamais à escola. Até o famoso Parabéns a você já virou Parabéns pra você.

A rejeição ao a se deve em grande parte aos hiatos desagradáveis que provoca. Por exemplo, “Ataliba adora-a a toda prova”. Essa sequência cacofônica de a’s não se resolve mudando o pronome de lugar: “Ataliba a adora a toda prova”.

Os portugueses em geral apreciam o a muito mais do que os brasileiros. Lá na terrinha, fala-se ao telefone, senta-se à mesa, fica-se ao sol, paga-se a dinheiro, entrega-se a domicílio. Até o famoso a nível de, tão repudiado pelos gramáticos brasileiros, tem seu lugar ao sol (ou no sol?) em Portugal. Além disso, os tempos cursivos, também chamados de progressivos, que aqui no Brasil se formam com o gerúndio (estou fazendo, estou dizendo) são construídos com a preposição a em terras lusitanas: estou a fazer, estou a dizer.

Outro dia, me deparei com esta bela frase em espanhol: todo lo que te sucede en la vida no es a ti, es para ti. Percebam a distinção que o castelhano faz das preposições a e para – assim como o inglês tampouco confunde to com for. Em português brasileiro, uma tradução não ambígua desse dito seria “tudo o que acontece na sua vida não é com você, é para você”. O verbo acontecer regia classicamente a preposição a (algo acontece a alguém), hoje rege preferencialmente com, preposição de companhia ou instrumento e não de alvo da ação. É o mesmo caso de contribuir com em lugar de contribuir a.

E a confusão de a com então? Isso aconteceu dois minutos, mas aquilo vai acontecer daqui a duas horas. Aí o povo vai e escreve: “a dois dias atrás…”, com duplo erro: preposição a em vez do verbo e redundância entre (no caso, a) e atrás.

E o que dizer de construções arcaicas como chegar a casa e preferir banana a laranja? Hoje se chega em casa e se prefere mais banana do que laranja. Aliás, há quem prefira muito mais uma coisa do que outra! Só faltou falar da interjeição ah: “ah, a amiga Aurora, há tempos que não a vejo!”.

Resumindo, o português brasileiro substituiu a preposição a por para (e consequentemente trocou à por para a, que no linguajar corrente virou pra a e depois simplesmente pra), substituiu por tem (exceto em expressões de tempo como “há dois dias” que se transforma automaticamente em “faz (ou, pior ainda, fazem) dois dias” e só manteve o a artigo (que não tem como substituir, né?) e a interjeição ah, que não se confunde com os outros a’s porque é sempre longa: “aaahh, que saudade do a!”.

26 comentários sobre “Ah, que saudade do “a”!

  1. Excelente texto. A gramática e a prosódia tornam por vezes difícil acertar o emprego do “a”. Certa vez um aluno escreveu numa narração: “Eu não queria deixar vovó sozinha a três meses da morte do meu avô.” Comentei um pouco maliciosamente que ele tinha sido profético… A assistência à avó se deu, na verdade, três meses após a morte do venerável parente — mas a troca do “há” pelo “a” acabou sugerindo o contrário!

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  2. Erros grosseiros, que só encontras no Brasil. Falam assim, porque não sabem português; são erros de ignorância. É por causa de êrros desses que o português no Brasil é tão corrupto, só êrros; e é por causa de linguistas maus, que, em vêz de corrigir e ensinar, toleram erros, como se fossem uma variação legítima de português, que o português no Brasil se vem degradando a uma linguagem de macacos. Vergonhoso!

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      1. Não ligue. É o típico português xenófobo, ignorante, que ironicamente não sabe escrever a língua que diz ser sua, provavelmente rejeita as reformas que modificaram a ortografia da forma que aprendeu, entre outras tacanhices. E digo isto também como português, envergonhado por este tipo de comentários que muitas vezes se leem na internet.

        Respondendo agora ao texto: gostei muito das suas observações. Já me tinha apercebido de algumas dessas alterações no falar dos brasileiros, mas não me tinha dado conta de que a preposição “a”, no geral, está a cair em desuso.

        O facto de aqui em Portugal não termos problema com os diversos “aa” talvez tenha a ver com a nossa maior distinção entre o “a” aberto (/á/) e o “a” fechado (/â/). Por exemplo, em relação àquela frase “Ataliba adora-a a toda prova”, em primeiro lugar, um pequeno aparte: nós dizemos “a toda a prova”. (Outro “a” para ajudar a cacofonia!) Em segundo, nós evitamos os hiatos aglutinando os conjuntos de “aa” fechados como um único “a” aberto, numa espécie de crase que só se realiza na fala. Ou seja, a frase soa algo como “Âtâlib-ádor-á-tod-á-provâ”. Assim, conseguimos pronunciar esta frase de forma fluida e a presença dos “aa” abertos ajuda o interlocutor a decifrá-la.

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      2. Olá, Gustavo!
        De fato, vocês portugueses têm uma vantagem na fala que nós brasileiros não temos: a distinção entre o /á/ aberto e o /â/ fechado impede a confusão, tão frequente no Brasil, entre a preposição “a” isolada e a crase “à” da preposição com o artigo. No Brasil são raras as pessoas que acertam o uso da crase; aí temos grafias como “à partir de”, “à ele”, etc.
        Um abraço!

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      3. O problema no Brasil é este: o povo, a maioria, erra porque não sabe, porque não entende a língua, e lingüistas brasileiros, uma larga classe, em vêz de corrigir e ensinar com entendimento, explicando a causa de as coisas serem assim e não de outro modo, justificam êrros, perpetúam êrros, até os mais grosseiros, que destróem a lógica da língua, confirmando, assim, o povo nos seus êrros, sendo prevaricadores, não cumprindo o seu dever. No Brasil, até lingüistas há, e não poucos, que ensinam que não há erros quando se fala, tudo é lícito. O que é perfeita tolice. Só no Brasil encontras lingüistas insensatos destes, que são a principal causa de o português no Brasil sêr cada vêz mais corrupto. No Brasil, até professores de português falam tão mal, com tantos êrros, e graves, que até admira. E o fructo disto manifesta-se na fala do vulgo; pois a maioria fala como meninos pequenos, ou como estrangeiros que acabaram de chegar ao país. Falam assim, não porque sejam pouco intelligentes, mas simplesmente porque não sabem. Se alguém lhes ensinar bem português (e falo de experiência própria, porque converso com brasileiros contìnuamente, e sei bem como elles falam, e corrijo-lhes os êrros, e explico, e elles agradecem), elles entendem e crescem na arte de falar bem, assim como qualquer menino vai crescendo e falando cada vêz melhor, se tiver bons instructores. Grande parte dos lingüistas no Brasil parece que não entende nem vê isto. Não entendem que um homem, se não fôr ensinado a falar, falará não muito melhor do que um macaco; não entendem que a língua stá sujeita a leis lógicas, e que falar bem exige intelligência, e que é necessário ensinar. Para muitos lingüistas brasileiros, cada um pode falar como quiser; e estes, por certo, não podem, nunca, sêr considerados bons lingüistas.

        Êrros de linguagem há-os em todos os povos, mas costumam sêr poucos, e são tractados como êrros e corrigidos. No Brasil é differente: no Brasil, êrros não são a minoria; no Brasil, êrros prevalecem, abundam, até em lettras de música, poemas, e livros de scriptores (só no Brasil vês isto); e logo apparecem lingüistas brasileiros a proclamar que não são êrros, visto que são muitos os que os commettem. Os exemplos que tu deste são todos êrros, e êrros grosseiros próprios do Brasil, não é português, mas tu os apresentas como se não fossem êrros, nem percebes como com isso pervertes virtualmente a língua portuguêsa, tornando-a numa lingua tôsca, imprecisa, caótica, sem sentido, diffícil de entender. E é este um vício terrível no Brasil, que qualquer que tenha olhos e saiba português pode vêr claramente. É o mau exemplo dos que deviam ensinar que faz que o povo brasileiro, geralmente falando, fale tão mal o seu próprio idioma. Creio que não haja povo civilizado sôbre a face da Terra que fale tão mal o seu proprio idioma como o povo brasileiro. A maioria dos brasileiros não é capaz de dizer cinco palavras seguidas sem commetter pelo menos um êrro grosseiro. Não sabem usar preposições, não sabem usar os verbos na forma reflexa, usam mal os verbos porque ignoram o seu significado, não sabem usar advérbios terminados em -mente, não sabem conjugar verbos, syntaxe catastrófica, e assim por diante. Esta é a verdade, innegável. Não digo mal do Brasil nem de ninguém, só descrevo a realidade, que, concordo, não é agradável; mas, infelizmente, muitos lingüistas no Brasil (não todos) são cegos para não verem esta triste realidade, ainda que seja evidente, e fazem da língua um rio sem margens, desfazendo-a. E isto é indignante, e deve sêr impugnado.

        Se alguém assumiu o dever de ensinar uma língua, então faça-o bem e fielmente, com entendimento; porque é de gente como esta que o mundo tem falta, e não de gente que não faz differença entre o bem e o mal, entre o sancto e o profano, entre a verdade e o êrro, entre o justo e o injusto, entre a luz e a treva. Alguém têr título de lingüista, de professor, de arquitecto, ou outro, não quer dizer que seja bom. Em todos os offícios há bons, há menos bons, e há maus. Também na minha própria carreira scolástica tive bons professores, tive professores menos bons, mas também tive professores maus. Não são todos iguais, não são todos igualmente bons. O que, então, seria um bom professor de português? Um bom professor de português é aquelle que sabe português, que entende português, que entende a lógica da língua, que sabe differençar entre a verdade e o êrro, e que, visto que entende, sabe explicar bem e corrigir êrros. E os que são ensinados por um professor desta qualidade, quam superior será a sua linguagem!

        Spero que não te offendas com o que screvi; só quis dize-lo sem rodeios, e com toda a franquêza; pois o stado do português no Brasil, que vai de mal a peior, é muito inquietante. Não é preconceito, é a realidade.

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      4. Prezado Christian, já que você escreveu uma réplica longa, vou lhe responder com uma tréplica também longa.
        Em primeiro lugar, quero deixar claro que sou linguista e não gramático ou professor de português. Como linguista, e portanto como cientista, eu estudo e tento explicar cientificamente a língua tal qual ela é usada, sem tecer juízos de valor entre certo e errado. Nesse sentido, há uma clara divisão de tarefas entre linguistas, gramáticos e professores. Linguistas estudam todas as manifestações linguísticas e procuram descrever a língua real, isto é, como ela é falada, tanto pelos doutos quanto pelos iletrados. Gramáticos estabelecem a chamada norma-padrão, ou gramática normativa, que é a que deve ser ensinada nas escolas; e professores ensinam a seus alunos essa norma.
        Como cidadão brasileiro e falante de português, também acho feio o modo como os brasileiros falam e sou conservador no uso que faço da língua, sobretudo a escrita, mas, perceba, isso é a minha opinião pessoal como cidadão; como linguista, não posso fazer juízos de valor; portanto, cientificamente falando, não há línguas feias ou bonitas, ou modos feios ou bonitos de falar determinada língua, há simplesmente fatos a ser estudados e explicados.
        No meu artigo, por exemplo, constatei a queda na frequência de uso da preposição “a”. Como falante, acho uma pena que isso aconteça, até porque eu mesmo gosto de usar essa preposição. Já como cientista da linguagem, apontei o fato no meu texto sem entrar no mérito de se isso é bom ou mau, se é certo ou errado.
        Concordo com você que nossa educação escolar é muito deficiente, e que, portanto, a maioria dos brasileiros não fala ou escreve segundo a norma-padrão simplesmente porque não aprendeu. Em tempos passados, quando a qualidade das escolas no Brasil era muito melhor do que é hoje, a fala e a escrita dos brasileiros escolarizados era muito mais próxima dessa norma do que é hoje.
        No entanto, como sou linguista e não professor de português, não costumo discutir nos meus textos questões relativas à educação. Se há no Brasil linguistas que abonam usos considerados incorretos pela gramática normativa, trata-se de um desvio de postura, isto é, de linguistas invadindo o espaço que pertence aos gramáticos e professores. Mas, por favor, não me inclua entre eles. Uma coisa é constatar um fato linguístico, por exemplo, a queda do uso da preposição “a”, outra coisa é legitimar isso como normativamente correto e uma terceira coisa é ensinar as pessoas a se expressar dessa maneira.
        Não fiquei ofendido com suas colocações justamente porque elas não dizem respeito a mim, mas acho, sim, que comparar pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar em boas escolas a macacos é um pouco demais! Também me incomoda ser colocado no mesmo balaio de linguistas desonestos ou incompetentes. Que eles existem, eu sei; que defendem o que defendem por razões ideológicas, eu também sei. Mas não me tome por um deles!
        Por último (e eu prometi que esta tréplica seria longa), continuo achando bizarro que você se erga contra o mau uso da gramática pelos brasileiros e, no entanto, escreva numa ortografia que remonta, no mínimo, ao século XIX.

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      1. Gostaria de tecer alguns comentários acerca da tréplica: a) para um bom ensino de Português ou de qualquer outra coisa, é preciso disciplina e nem sempre os professores encontram alunos dispostos a aprender e que sejam disciplinados, principalmente na escola pública, onde há problemas de todo tipo; b) os verdadeiros professores de Língua Portuguesa sempre procuraram ensinar a língua exemplar nas escolas, conscientes de sua tarefa e a par das atribuições de cada profissional, como o senhor bem explicou e está no livro de Bechara “Ensino da gramática. Opressão? Liberdade?”; c) infelizmente reconheço também que há linguistas que invadiram o espaço do professor e muitos colegas acabaram se contaminando. Uma vez assisti a um debate com um desses linguistas, “que abona usos considerados incorretos pela gramática normativa”. Sujeito extremamente arrogante e grosseiro que se considera o linguista. Não assisti ao debate por causa dele, obviamente. Felizmente lá estavam Deonísio da Silva e Sérgio Nogueira, este, diferentemente do linguista, uma pessoa muito educada. Abraço, prof. Aldo.

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      2. É verdade, Patrick. A educação é algo necessário à civilização, mas de certo modo vai contra nossos instintos rs. Muitas crianças e jovens não gostam da escola e do estudo, e não porque a escola em si seja chata (na verdade, ela é chata, mas…) e sim porque é da natureza do ser humano em formação rebelar-se contra a autoridade – e o professor, seja ele bonzinho ou autoritário, é visto como autoridade. Mesmo assim, a maioria das pessoas que frequentam boas escolas se educam, o que reforça em mim a convicção de que a ignorância, inclusive gramatical, que grassa por aí é fruto de um mau sistema de ensino, que finge que ensina, que tem professores mal formados e mal preparados, e que, a título de inclusão social, põe na sala de aula marginais que ameaçam a vida dos professores, esperando que eles se tornem cidadãos de bem. Ou seja, como diz o baiano, “o buraco é mais embaixo”.

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      3. “A título de inclusão social, (o sistema) põe na sala de aula marginais que ameaçam a vida dos professores, esperando que eles se tornem cidadãos de bem.” Disse tudo! Raríssimas são as pessoas que têm coragem de dizer isso.

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  3. Amigo Aldo, essa classe insensata no Brasil, da qual eu digo que corrompe a língua portuguêsa, engannando-se uns aos outros com tolices, e contrariando a obra daquelles que verdadeiramente se esforçam por conservar a integridade da língua, e à qual resisto fortemente, não é composta só de lingüistas; também confessos grammáticos e professores se acham nella, com outros falantes de português que, sendo imprudentes, se deixam engannar pelas suas falácias. O que elles fazem é baixar a norma, para accommodá-la a êrros que destróem a structura lógica da língua portuguêsa, fazendo que aquelles que já falam mal por ignorância, falem ainda peior. É que nem elles mesmos acertam na língua portuguêsa como deviam, sendo maus exemplos, e deveriam têr alguma auctoridade nisto? Na sua cegueira, não vêem os stragos que fazem à língua. Se tu chamares peccado ao peccado, esses néscios levantam-se logo e chamam-te preconceituoso, soberbo, ou outros nomes. Não me admira se na moralidade tiverem a mesma postura. E foi isso que eu disse, quando falei de degradar o português a uma língua de macacos. Não chamei, de maneira nenhuma, macacos àquelles que erram ignorantemente, nem os desprezo; pois nenhum homem nasce sabendo falar, antes tem de sêr ensinado; porque, se ninguém lhe ensinar a falar, o homem falará não melhor, ou não muito melhor, do que um macaco. Desde a antigüidade há sido a rethórica uma arte altamente estimada; para esses insensatos, porém, bom ou mau, feio ou bello, recto ou tôrto, é tudo igual, nada é superior ou inferior; até linguagem de macacos da selva é para elles uma legítima variação de português, poderia dizer-se. Para o tôlo, a língua é mesmo um rio sem margens. Mas, se tu dizes que não pertences a essa classe, bom é, e amigos somos.

    Qualquer que saiba português pode julgar e deve ensinar e corrigir êrros, mas principalmente grammáticos e professores de português, mas também lingüistas, dos quais se spera que saibam e entendam bem português. Não é obra consummada descrever a origem e o desenvolvimento de êrros, sem dizer que são êrros e sem corrigir. Um lingüista, sabendo português, pode apreciar e deve julgar, sim, e corrigir. Por isso, não concordo com a opinião de que não seja dever de um lingüista ensinar e corrigir. Para quem sabe, se ouvir ou vêr êrros, é sua obrigação corrigir, seja elle quem fôr; pois não é necessário sêr professor de português para saber português. Deixar errantes a errar, e não os corrigir, é contrário à lei da caridade.

    Qualquer, pois, que use a preposição «para» ou «em», em vêz de «a», ou o pronome «elle», em vêz do accusativo «o», e outros êrros, deve sêr corrigido; e eu corrijo e digo claramente que tal NÃO É PORTUGUÊS nem nunca foi, é perverso, é êrro commum no Brasil. Porque os mesmos que commettem esses êrros, commettem uma multidão de outros êrros também, por IGNORÂNCIA, porquanto ainda não dominam o português. O remédio é ensinar, e não deixá-los nos seus êrros, engannando-os, fazendo-os falar mal eternamente, impedindo que cresçam e deixem de sêr meninos na fala. Pero, se alguém disser: Eu falo como eu quiser, ainda que seja mal; para mim não há êrros; é linguagem colloquial (a tudo o que é perverso os engannados no Brasil chamam linguagem colloquial)! — então fale como quiser. Cada um é livre para falar como quiser. Um menino fala como um menino, um tôlo fala como um tôlo, um sábio fala como um sábio. Cada um escolhe o que quer sêr; ninguém é forçado a nada. Mas não insultem a língua portuguêsa, chamando a isso português, porque não é.

    Se, no Brasil, tão sòmente ensinassem a língua portuguêsa com o mesmo zêlo com que ensinam, sem julgar, uma grafia corrupta, que desfigura os verbos, mutilando-os à toa (o que impede um bom conhecimento do verbo), o Brasil seria uma das nações que melhor fala o seu próprio idioma, não haveria entre o povo esses êrros todos.

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    1. Caro amigo Christian,
      Respeito a sua posição, embora a considere um pouco radical. Na verdade, todas as línguas apresentam variações, especialmente entre a norma-padrão, exigida sobretudo na escrita formal, e a fala informal; isso é assim no espanhol, no francês, no inglês, no italiano… Pois bem, afirmar que alguém que diz “Eu vi ele” em vez de “Eu o vi” não está falando português é um exagero. Dito de outra maneira, desvios da norma existem em todas as línguas, e isso faz parte do jogo linguístico. Mesmo nações que têm um excelente ensino convivem com esse problema (claro, não em tão grande intensidade como o Brasil).
      Reconheço que a distância entre a língua falada informalmente e a língua escrita formal, no caso do português brasileiro, é abismal e muito maior do que se verifica em outros idiomas europeus. Eu mesmo tenho apontado esse fato nos meus artigos e, juntamente com um amigo gramático brasileiro, estamos articulando a criação de uma página na internet onde vários linguistas e gramáticos vão defender o ensino estrito da norma-padrão nas escolas. Portanto, será um bastião na luta contra o vale-tudo linguístico pregado por certos pseudolinguistas e pseudoprofessores de português. Desde já o convido a acompanhar nossas publicações quando estiverem disponíveis.
      Outro ponto importante abordado por você é a questão da deseducação que certos professores mal formados (ou deformados, se preferir) promovem entre seus alunos. De fato, circula em nossas faculdades de Letras uma certa visão esquerdista tacanha de que a norma-padrão deve ser abolida por ser opressiva e um elemento de dominação do proletariado pela burguesia branca e racista etc. etc. (você deve conhecer bem a ladainha vitimista dos pretensos marxistas).
      Compreendo a sua indignação, mas, infelizmente, não vislumbro solução a curto prazo para o problema. Agora mesmo vivemos uma crise política causada por um governo que prometia, dentre outras coisas, tirar o país da vergonhosa última posição nos exames do Pisa, mas cujo ministro da educação é um analfabeto. Definitivamente, no momento não há clima para debatermos questões como essa, quando a própria democracia no país corre risco.
      Por último, a minha posição pessoal é de que corrigir os erros gramaticais dos outros é algo muito delicado. Se tenho intimidade com a pessoa, posso até alertá-la de que ela errou a gramática; se não tenho, não vou me indispor com ela por causa disso. Temos de reconhecer nossos limites sociais.
      Um abraço.
      P.S. Na grafia conservadora que você adota, “falácia” deveria ser grafada com dois ll (fallácia). Opa! Desculpe, corrigi você rs.

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      1. Caro Aldo,

        Estou longe, mas mesmo muito longe de ser esquerdista e, como pode ver, não me é nada difícil expressar-me com correção, pelo que a crítica que lhe farei nada tem que ver com esquerdismos nem facilitismos: tem que ver com o que julgo ser uma incoerência de natureza epistemológica que, num linguista, me causa alguma estranheza.

        É que um linguista, como cientista que é, tem, por assim dizer, uma visão desencantada, não metafísica da língua; sabe-a existente num continuum entre a norma-padrão e a linguagem popular, que é, ademais, um continuum dinâmico, pois mesmo a norma-padrão vai mudando ao longo do tempo. É escusado recorrer ao lugar-comum de que, se assim não fosse, falaríamos todos latim. E latim clássico!

        E se é assim, se o linguista não tem da norma-padrão uma visão metafísica nem romantizada, não teria por que lamentar que se fale ou que se escreva desta ou daquela maneira. Sim, sei que você disse que o lamenta não como cientista, mas como cidadão; que, como cidadão, é conservador no uso da língua. Também eu sou conservador na escrita, muito por hábito, porque fui ensinado a sê-lo e porque me seria hoje mais difícil deixar de o ser; mas não vejo senão com naturalidade, sem juízos estéticos, os fenômenos que você, ao mesmo tempo que os descreve, cientificamente, parece lamentá-los, civicamente, como quem acalentasse o sonho, ainda que, como cientista, o saiba improvável, para não dizer impossível, de que o estado deplorável que se limita a descrever venha a reverter-se algum dia, quando houver novamente educação de qualidade no Brasil.

        Num linguista de esquerda como Marcos Bagno, chama a minha atenção a contradição em que ele incorre, nos seus próprios termos, quando diz que nenhuma ciência, e a linguística não seria exceção, é neutra: se assim for, como se explicaria que os fatos por ele descritos não divirjam daqueles referidos por linguistas de orientação político-ideológica oposta à dele? Que ele, mais que descrever os fatos, valorize os desvios à norma-padrão como marcas identitárias de grupos marginalizados a quem gostaria de ver respeitados, como se não conviesse que nos adequássemos às exigências específicas a cada circunstância: o advogado que fala ao juiz como se estivesse num bar é mau advogado, e o amigo que fala no bar como se estivesse num tribunal é insuportavelmente chato; enfim, que ele assim os valorize é um equívoco comparável ao daquele que se apega sentimentalmente a tal ponto à norma-padrão, transitória como o foram todas as normas-padrão que lhe antecederam, que chega a lamentar que os fatos que descreve existam tal como existem.

        Sou levado a perguntar-lhe por que traçar o limite do aceitável, normativamente, ou, para continuar a conversa com o cidadão Aldo, por que traçar o limite do não lamentável de modo que coincida com os seus próprios hábitos de escrita? Por que não seguir os que ainda são mais exigentes, que ainda condenam o uso do verbo virar como sinônimo de tornar-se, como o que fez no seu texto, ou que ainda exigem estrita observância a regras de colocação pronominal que nem mesmo em Portugal se respeitam à risca, regras cuja transgressão não parecem incomodar o cidadão Aldo? Ou que lhe exigiriam a concordância com o núcleo do sujeito, em “a maioria dos verbos que regiam” (afinal, facultividades são facilitismos aos que não dominam a “lógica” da língua)? Por que não ser ainda mais exigente que o Christian Ad e o Aldo juntos, já que o primeiro errou ao escrever falácia, e o segundo, ao corrigir o erro do primeiro para fallácia, quando, na verdade, segundo a norma que o Christian Ad tenta seguir, não sem se deixar trair aqui e acolá, se deveria escrever fallacia, sem o acento? Ou, ainda, expurgar do texto “clássico” (só rindo mesmo) do Christian Ad inovações lusitanas relativamente recentes, como o uso de tornar-se a reger a preposição em, como em “tornando-a numa lingua tôsca”? Ou a realização do pronome pessoal mesmo quando é dispensado pela flexão do verbo que lhe segue?

        É esta a estranheza que me causa esse tipo de lamento cívico num linguista que, como tal, não tem nem poderia ter da norma-padrão uma visão metafísica, como tem quem a toma por ideia, na concepção platônica de forma pura.

        Seria outra a nossa conversa se se lamentasse a extrema dificuldade que a maioria dos brasileiros tem de se expressar bem, em frases bem concatenadas; mas não têm essa dificuldade muitos jornalistas, escritores, linguistas e, pasme!, até alguns linguistas civicamente conservadores que, na fala e mesmo em textos menos monitorados, incorreriam nos mesmos “vícios” que o fizeram sentir saudades de uma preposição moribunda. Que venha a descansar em paz.

        Encerro não sem antes dizer que, como vê, as minhas provocações são sinceras e respeitosas, além de partirem de alguém que não é de esquerda, que é crítico à apropriação político-ideológica do discurso científico e que, ao mesmo tempo, não compreende que um linguista ainda revele, nas suas inclinações cívico-estéticas, laivos da visão metafísica que os gramáticos de antanho tinham da língua pura.

        P.S.: É apenas à luz do seu conservadorismo estético que consigo compreender a sua paciência com um caturra como o Christian Ad. Não que eu ache que se deva proscrever do debate quem quer que seja, não importa qual seja a posição que defenda. Não é isso. Mas é que a postura de mestre-escola oitocentista (ou setecentista?, ou seiscentista?) é a de um bufão a quem chega a ser difícil levar a sério. Ele disse algo sobre homens que falam como meninos, mas pior, ou peior (valei-nos, Senhor!), são os homens que se comportam como meninos, que é como se comportam aqueles caturras que derivam algum sentimento de superioridade da maneira afetada, exótica até, como falam e escrevem para que os outros os olhem com perplexidade, que costumam confundir com respeito e admiração. Eu, a bufões desse tipo, nunca dou resposta, que é para não lhes dar a impressão de que a mereçam. Não deixo de ponderar, todavia, que esse é mesmo o tipo que se atrai quando se usam, num texto sobre a língua, expressões como trair, adúltera relação, irmã plebeia etc. Expressões que me custa crer em que se me deparassem no texto de um linguista, não porque eu ignore o sentido que lhes deu no contexto, mas por abrirem o flanco a críticas que, de outra forma, se teriam facilmente evitado.

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      2. Caro Aldo,

        Permita-me ser ainda mais claro: não é dizer nem escrever “Aconselhei ela pra ir de carro na padaria” o retrato da tragédia educacional brasileira, assim como não o é tampouco que o ex-ministro da Educação escrevesse paralizante com zê e imprecionante com cê, mas a dificuldade da maioria em ler e interpretar textos de média complexidade e em escrever com clareza e correção, e, por correção, refiro-me à adequação do texto à norma culta brasileira real, que ainda não permite escrever “aconselhei ela”, embora essa construção já tenha ganhado* plena cidadania na norma culta oral, exceto em falas extremamente monitoradas.

        Mas você sabe disso muito melhor que eu, embora pareça lamentar que assim seja, diferentemente de mim. E que não o lamente não implica que eu o aplauda: simplesmente, não vejo sentido em lamentar nem em aplaudir fatos linguísticos que não empobrecem nem enriquecem a expressão das ideias, que é antes enriquecida pela clareza, coerência e coesão da forma e pela profundidade do conteúdo.

        Si eu iscreveci tudu cuantu iscrevi até agora neça grafia arrevezada, ainda acim teria iscritu um testu coerenti, coesu e claru, malgradu ferici di morti as vistas de uns cuantus.

        Não que defenda essa ortografia arrevesada; quero com isso apenas deixar claro que muito se polemiza por muito pouco entre linguistas de orientações político-ideológicas opostas que, todavia, descrevem os mesmos fatos e concordam em que a maioria dos brasileiros, inclusive a maioria dos professores brasileiros de português, escreve muito mal, não por cometerem erros ortográficos nem por usarem os pronomes de terceira pessoa como objetos diretos, mas por escreverem truncadamente, como quem soluçasse, textos rasos, eivados de lugares-comuns.

        P.S.: Alguns portugueses vão cair da cadeira quando souberem que, na Madeira, também é comum usar: (i) ter existencial, em vez de haver; (ii) pronomes pessoais como objetos diretos; (iii) relativas não-padrão cortadoras; (iv) pronomes possessivos não precedidos de artigos definidos e várias outras construções que sempre vi serem atribuídas a influências de línguas africanas e indígenas na formação do português brasileiro. Encontram-se facilmente pelo Google artigos das pesquisadoras Aline Bazenga e Catarina Andrade sobre isso, em que defendem que o Português da Madeira é uma espécie de elo insular que permite falar num continuum entre o PE continental e o PB.

        * Os caturras preferirão “embora já ganhasse” ao galicismo sintático de que me socorri por “ignorância da lógica da língua”.

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  4. “De fato, circula em nossas faculdades de Letras uma certa visão esquerdista tacanha de que a norma-padrão deve ser abolida por ser opressiva e um elemento de dominação do proletariado pela burguesia branca e racista etc. etc. (você deve conhecer bem a ladainha vitimista dos pretensos marxistas).” Estou cansado de escutar isso. São os tais pseudolinguistas que dizem essas coisas. Professor Aldo, pode nos dizer quem é o amigo gramático? Fiquei curioso.

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    1. Caro Patrick,

      Dizer que a ideia de norma-padrão e da necessidade do seu ensino é opressiva é mesmo uma visão tacanha. Não é, contudo, tacanha a visão de que a norma-padrão tem que ser (tem de ser) atualizada, em conformidade com a norma culta real contemporânea do Brasil, a menos que se tenha uma visão metafísica de norma-padrão, que estaria consubstanciada na norma mais ou menos seguida pela generalidade dos escritores portugueses e brasileiros do século XIX.

      Se se retiver o conceito de norma-padrão despido da conotação metafísica que já teve, e que ainda tem para os caturras, ele convergirá para a norma dos falantes mais cultos de determinado lugar, de determinada época, em que pese (em que pese a) alguma diatribe entre os gramáticos mais conservadores, mais apegados à norma-padrão precedente à da sua própria época, e os escritores mais abertos à norma do seu tempo, que, por sua vez, serão a referência de correção dos gramáticos conservadores do porvir. (A) Essa dinâmica se assiste em todas as línguas, como exemplificam as formas que pus lado a lado, as mais conservadoras entre parênteses logo depois das mais correntes, mesmo entre os falantes cultos.

      Não tem por que, por exemplo, não assimilar à norma-padrão do Brasil o ter existencial em lugar do verbo haver, muito embora a mim não me custasse nada escrever “não há por que” no início desta frase, porquanto tem (há) muito tempo que o verbo haver morreu, em português brasileiro, seja no boteco, seja no Supremo Tribunal Federal, ao menos na conversa entre os ministros, e não nas sessões, em que se leem votos escritos num português que tenta imitar o de Rui Barbosa.

      O radicalismo passa longe da minha visão: não sou esquerdista, acho que se deve ensinar às crianças a norma-padrão, que deve ser a norma culta real do Brasil do nosso tempo, e não a do tempo do Império do Brasil; mas, além disso, acho que se devem ensinar também os traços gerais das normas-padrão anteriores à atual, para que as crianças usufruam com o máximo proveito do nosso patrimônio literário e para que não se deixem melindrar por bufões que pouco mais fazem na vida que sair à cata de ouvidos que se prestem à tortura de lhes ouvir os sermões pretensamente edificantes. (Se, contudo, todos se pusessem a falar e a escrever tão bem quanto dizem desejar que todos falem e escrevam, esses mesmos bufões cairiam numa melancolia profunda, de quem já não sabe mais que fazer da vida, porque já a ninguém admiraria a sua erudição, o seu bem-falar.)

      Até porque, como mostrou o caturra que por aqui apareceu, não há limites racionais ao purismo metafísico: teve (houve) gramáticos que fustigaram Drummond pelo tem, em “tem uma pedra no meio do caminho”, como teve (houve) os que corrigiram erros a Machado de Assis, condenaram os galicismos a Eça de Queirós (Queiroz) e, pasme-se, acharam por bem corrigir erros ao próprio Camões, a quem costumam reservar o lugar mais alto no Panteão dos Pais da Língua. Sabem mais que todos. E sabei vós, que lhes dais espaço, que os caturras dizem somente ter (haver) erros, tais como os que corrigem, no Brasil, mas vivem castigando (a castigar) os próprios patrícios, como se a honra de Portugal estivesse em jogo à sombra dos menores erros que se entrevissem, ainda que se entrevejam somente à distância dos séculos que separam a gramática que têm por referência e a norma culta real seguida pelos seus contemporâneos mentalmente sãos.

      Perdoe-me a digressão, mas é que criticar o excesso dos linguistas à esquerda não implica que não devamos levar a sério as conclusões a que chegam todos os linguistas, independentemente das suas orientações político-ideológicas; e levá-las a sério implica que, ao defendermos o ensino da norma-padrão às crianças, tenhamos em mente a norma culta contemporânea do Brasil, e não alguma idealização romântica da norma do século XIX, ou, no caso dos portadores de caturrice terminal, de séculos ainda mais recuados.

      Eu só escrevi como escrevi, para que não se pusesse o que escrevo na conta da minha pretensa incapacidade ou ignorância, não por que ache que se vá acabar o mundo se alguém, por exemplo, começar frases com pronomes oblíquos.

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  5. Caro Rodrigo,
    Como você me dirigiu várias mensagens, todas longas, em que abordou diversas questões, terei de também me alongar um pouco na minha resposta. Mas antes de responder aos pontos que você levantou, preciso fazer algumas considerações preliminares nas quais fundamentarei meus argumentos.
    Primeiro, peço-lhe que leia o texto de apresentação do meu blog na aba “SOBRE ESTE BLOG”, do qual transcrevo abaixo alguns excertos:

    “Este blog não é necessariamente sobre linguística ou língua – embora estes tendam a ser temas frequentes aqui –, mas é, antes, um blog feito por um linguista […]”
    “Aqui me permito refletir e falar sobre os mais diversos assuntos […] E também me permito expressar opiniões. Pois, diferentemente do cientista da linguagem, que deve ser neutro e imparcial diante dos dados que analisa, quem fala aqui é o cidadão que por acaso exerce a profissão de cientista. Mas que tem sensibilidade, sangue nas veias e, sobretudo, rejeita rotulações. Afinal, quem gosta de rótulo é embalagem.”

    Ou seja, se você deseja de mim afirmações neutras e imparciais, sugiro que consulte meus artigos acadêmicos, que estão disponíveis em plataformas com Academia.edu e ResearchGate.net.
    Segundo, como você pôde constatar, escrevo num português que nem é totalmente padrão nem é totalmente coloquial. Isso se aplica tanto ao vocabulário quanto à gramática. Ocorre que, além de pesquisador, sou um divulgador científico, que tenta falar sobre ciência da linguagem ao público leigo. Por isso, escrevo num estilo que não é aquele em que os por você chamados de caturras gostariam que eu escrevesse (e no qual, me parece, ou, se preferir, parece-me, você escreve), mas escrevo na linguagem que meu leitor médio compreende e aprecia. Em suas próprias palavras, escrevo “num continuum entre a norma-padrão e a linguagem popular”.
    Mais do que isso, o que faço no meu blog é uma crônica dos fatos da língua (e também de outros assuntos), que, como tal, envolve opiniões e até idiossincrasias pessoais e lança mão de recursos estilísticos não admissíveis em textos acadêmicos. Isso explica termos como “trair”, “adúltera”, “plebeia”, etc.
    Em terceiro lugar, não sou um defensor empedernido da atual norma-padrão do português nem muito menos a coloco num patamar metafísico; muito pelo contrário, vejo nela muitos defeitos, mas tampouco defendo o uso de toda e qualquer construção corrente como modelo do que deveria ser a nova norma-padrão.
    Em quarto lugar, sou especialista em linguística histórica e comparada, especialmente de línguas românicas e germânicas. Ao longo de muitos anos estudando e comparando línguas europeias, não pude deixar de perceber que o português foi afetado por dois fenômenos que, do ponto de vista científico, não são bons nem maus, já que a ciência não faz juízos de valor, mas que, em termos geopolíticos, desfavorecem bastante a difusão de nosso idioma e de sua respectiva cultura frente ao inglês, francês, espanhol, italiano e alemão, apenas para citar os principais.
    O primeiro fenômeno é o fato de que o português, à medida que foi se consolidando como língua literária e de cultura distinta do antigo galaico-português, foi também se distanciando de suas irmãs neolatinas em termos léxicos e gramaticais.
    O segundo é o fato de que o português, diferentemente das demais línguas citadas, tem duas normas-padrão: a lusitana e a brasileira. Mesmo o espanhol, falado numa extensão geográfica muito maior do que a do nosso idioma, tem uma grande uniformidade gramatical; na verdade, a única exceção seria o uso dos pronomes de tratamento no espanhol platino, que emprega “vos” em lugar de “tú” ou “usted” com as respectivas adaptações verbais. Quando lemos um texto em espanhol, francês ou inglês, não é fácil perceber de imediato se o autor é ibérico ou latino-americano, se é francês ou canadense, se é britânico ou americano. Só uma ou outra divergência ortográfica ou vocabular denuncia a origem do texto. Já em português a distância entre as duas normas é perceptível já nas primeiras linhas. E isso causa grande embaraço ao estudo do idioma por estrangeiros, por exemplo.
    Não tenho saudade do português de séculos passados nem idolatro a nossa norma-padrão. Na verdade, como falante do português e não como linguista, bem entendido, acalento dois sonhos impossíveis. Primeiro, que o português se reaproxime das demais línguas românicas, especialmente do espanhol, do italiano e do francês. Segundo, que as línguas de Portugal e do Brasil se reaproximem, ao menos no padrão formal, para que livros em outros idiomas não tenham que receber uma tradução portuguesa lá e outra cá; para que manuais de instruções de produtos e softwares estrangeiros não tenham de oferecer duas opções de leitura ou configuração: português (PT) e português (BR).
    Se lamento a morte da preposição “a”, não é por amor ao português lusitano – que não tenho – ou à norma-padrão (brasileira ou europeia), que critico e gostaria de reformar; é pelas razões que acabo de mencionar. Aliás, defendo, como você, a modernização da norma-padrão, mas seguindo critérios científicos de racionalidade, regularidade e simplicidade e não simplesmente o critério do uso, mesmo que por grandes literatos.
    Sobre a “fallácia” do leitor Christian Ad, tenho perfeita consciência de que, no tempo em que essa palavra se grafava com dois ll, ela não tinha acento. Mas a grafia estrambótica que propus foi justamente a que esse senhor Christian usa (observe que ele mistura os ph’s e y’s de antigamente com as regras atuais de acentuação).
    Por último, respondi a ele como estou respondendo a você por respeito a todos os meus leitores. Só não respondo a ofensas e insultos. Estou aberto ao debate de ideias e também à troca de opiniões – mesmo aquelas bem pessoais e idiossincráticas.
    Um grande abraço!

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    1. Caro Aldo,

      Permita-me fazê-lo passar pelo constrangimento de ter de ler este elogio: que clareza e que honestidade intelectual, daquelas já há muito não vistas em boa parte da academia. Não é comum que me sinta suficientemente esclarecido depois de uma primeira resposta, por longa e circunstanciada que seja.

      Não acalentamos os mesmos sonhos. Sou da opinião, que você certamente partilhará em alguma medida, de que são sobretudo outros os fatores geopolíticos que concorrem para a pouca difusão do nosso idioma, como a irrelevância técnico-científica e econômica, em que pese ao tamanho da economia brasileira, dos países em que se fala português. Não me incomoda o distanciamento das normas-padrão brasileira e europeia, com que me parece possível conviver sem grandes prejuízos, inclusive à difusão do idioma, pelos motivos que expus.

      E tenho perfeita consciência de que escrevo como um caturra – claro que não como uma caricatura de caturra, que chega a ter inclusive uma ortografia pessoal. É que a minha formação e a minha experiência profissional me foram moldando aos poucos, e, hoje, como já lhe disse, acho mais difícil escrever de outro jeito que não este. Eu teria de pensar mais para escrever de outro jeito, pelo que não faria sentido algum.

      Isto posto, esclareço-lhe que prefiro a maneira como você escreve no blogue, como divulgador científico, à minha própria maneira de escrever, que recende a mofo, a bolor, a gramática de jesuíta.

      Desculpe-me não ter lido antes a seção Sobre este blog e ter-lhe escrito várias e longas mensagens: é que sempre receio não ter conseguido ser suficientemente claro nem delimitar precisamente o escopo da crítica, a fim de evitar mal-entendidos desnecessários. Não tenho o seu dom da concisão. Mas entenda a minha prolixidade como resultante da minha honestidade intelectual, que me compele a querer ser sempre o mais possível claro.

      Um grande abraço a você também!

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