A crase: um problema cognitivo?

Existem dois tipos de pessoas: as que sabem usar a crase e as que não sabem. Questão de educação, dirão muitos. Mas o incrível é que muitas pessoas que não sabem distinguir quando o “a” leva crase ou não (ou, como querem os gramáticos puristas, leva acento grave indicativo de crase) são tão escolarizadas quanto as que sabem. Ora, a questão da crase não é nenhum bicho de sete cabeças. Eu diria que, com umas poucas aulas de treino e aprendizado, qualquer um pode dominar a regra. No entanto, há pessoas que, por mais que tenham sido ensinadas sobre preposições e artigos, por mais que tenham memorizado regrinhas, como a da substituição da preposição “a” por “para” ou “até”, ou a da substituição da palavra feminina pela masculina correspondente, são simplesmente incapazes de aplicar o sinalzinho gráfico corretamente. Tanto que até um deputado, de nome João Hermann, certa vez sugeriu a abolição por decreto do malsinado acento – o que indica que ele, provavelmente, faz parte da legião dos que se embaraçam com a crase.

Às vezes chego a pensar que a crase é um divisor de águas – e de mentes – entre as pessoas: é como se aquelas que têm facilidade em usar o sinal tivessem um intelecto superior, isto é, fossem dotadas de uma capacidade cognitiva que as demais simplesmente não têm.

O fato é que, por mais que se aprendam regrinhas, elas não dão conta de todos os casos. Em “seguir à risca”, o “a” é craseado porque “à” pode ser substituído por “para a”, “até a”, etc.? Ou porque podemos substituir “à risca” por “ao risco”? Nada disso. Será porque é locução adverbial? Então por que “a sangue frio” não tem crase? Sobretudo, regrinhas como estas funcionam se a pessoa sabe que ali, naquele ponto da frase, existe uma preposição e o que está em jogo é saber se existe também o artigo. Só que muitas pessoas sequer sabem quando há ou não preposição (e por isso dizem “isso é devido o fato…”).

Ora, nada substitui o conhecimento da gramática do idioma, a compreensão do que seja a contração de uma preposição “a” e de um artigo feminino “a” – o que implica saber quando se usa tal preposição e tal artigo. E isso a escola básica sempre ensinou, desde os tempos em que o ensino tinha qualidade no Brasil. E desde aquela época, já havia dois tipos de pessoas: as que acertam e as que erram a crase.

Fica aos neurocientistas o convite para que investiguem o caso.

4 comentários sobre “A crase: um problema cognitivo?

  1. Olá, professor, aproveito a oportunidade para esclarecer uma questão. Está se tornando comum a não utilização da crase na expressão “ensino à distância”. O dicionário Houaiss afirma o seguinte: “na loc. a (à) distância, não é preciso usar a crase quando a distância de que se fala não é especificada (viram algo movendo-se a distância); usa-se obrigatoriamente se é especificada (o portão ficava à distância de 4 m)”.

    Porém, no caso de “ensino à distância” não se trata da maneira que o ensino está sendo oferecido? A preferência seria pela crase? Segue-se o que orienta o dicionário? E se o uso é facultativo qual das duas opções é a melhor forma em sua opinião? O que pensa a respeito? Abraço do seu ex-aluno.

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    1. Na verdade, Jorge, em “ensino a/à distância”, a distância no caso não está especificada (em termos de metros, quilômetros, etc.), portanto, segundo a regra gramatical, a crase é facultativa. É como se disséssemos “ensino em distância”, assim como temos “entrega em domicílio”. Mas você pode usar a crase, se preferir.

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  2. Caríssimo Aldo: talvez seja preguiça de pensar, não é mesmo? Para certas pessoas, pensar cansa. Infelizmente, a maior parte dos brasileiros não se dedica ao estudo do idioma pátrio, não considera relevante o conhecimento do idioma como uma questão de cidadania.

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    1. Sem dúvida, Patrick, a maioria das pessoas tem preguiça de pensar, e não só em relação à língua, mas a tudo: política, religião, costumes, ética… E esse não é um problema exclusivamente brasileiro: línguas como o francês e o inglês apresentam problemas semelhantes. Talvez o mais grave é que, enquanto nesses idiomas os erros gramaticais costumam ficar circunscritos às pessoas de baixa escolaridade, no Brasil mesmo pessoas com grau universitário têm escolarização precária. E hoje em dia qualquer um pode ter um diploma de nível superior.

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